Notícias - Gárgula Gótica leva a pedra do património histórico ao design de luxo

27/08/26

Gárgula Gótica leva a pedra do património histórico ao design de luxo

Do Mosteiro da Batalha à reconstrução integral de fachadas e às peças exclusivas para designers internacionais, Oliver Meffert, acolitado por Alzira Antunes, mostrou como tradição artesanal, tecnologia e conhecimento da pedra podem conviver no mesmo projeto. Uma viagem por 28 anos de trabalho da Gárgula Gótica e pelas múltiplas possibilidades da pedra natural.

 

Há trabalhos em pedra que exigem preservar rigorosamente aquilo que o tempo deixou e outros em que é preciso reconstruir o que já desapareceu. Há ainda projetos em que a pedra deixa o património para entrar na arte, no mobiliário e no design de luxo. Foi essa amplitude que Oliver Meffert e Alzira Antunes levaram à 4.ª Conferência Internacional "Portuguese Stone – The Natural Path”, promovida pela ANIET e co financiado por COMPETE 2030, Portugal 2030 e União Europeia, mostrando como a Gárgula Gótica cruza ofício artesanal, conhecimento técnico e novas tecnologias para trabalhar um material com séculos de história sem o fechar no passado.

 

"O objetivo da Gárgula Gótica é combinar o artesanato tradicional com criatividade, inovação e precisão técnica”, sintetizou Oliver Meffert no início da apresentação. Com 28 anos de atividade e cerca de três décadas de experiência profissional dos seus responsáveis na escultura em pedra, a empresa percorreu áreas tão diferentes como a conservação e reconstrução do património, a arquitetura, a escultura, a criação artística e o design de mobiliário.

 

A própria apresentação em palco reproduziu esse percurso: começou no património português, passou pela reconstrução de elementos arquitetónicos desaparecidos e terminou no universo das peças únicas e das edições limitadas para designers e clientes internacionais.

 

Conservar é saber exatamente como reconstruir

Instalada na Batalha, a Gárgula Gótica tem no Mosteiro da Batalha um dos exemplos mais evidentes daquilo que significa intervir num monumento em pedra. O trabalho apresentado por Meffert e Alzira Antunes, incidiu sobre uma muralha com cerca de 160 metros, onde foi necessário retirar cimento colocado durante intervenções anteriores e reconstruir elementos ornamentais desaparecidos.

 

Foram reproduzidas cerca de 160 peças decorativas em forma de folha, algumas das quais haviam desaparecido ao longo dos anos. O desafio não consistia, porém, apenas em produzir novas peças: era necessário fazê-las de forma a que a intervenção permanecesse fiel ao conjunto existente.

 

"Tudo igual. Tem de ser igual”, sublinhou Meffert quando questionado sobre a reprodução dos elementos. As peças foram pré-trabalhadas através de CNC, mas o acabamento final foi executado manualmente para recuperar a textura original, recorrendo também a argamassas tradicionais de cal e areia e procurando utilizar pedra tão semelhante quanto possível à existente.

 

É precisamente nesta conjugação que se encontra uma das ideias centrais da apresentação da Gárgula Gótica: a tecnologia não substitui necessariamente o conhecimento artesanal. Pode, pelo contrário, funcionar como instrumento de precisão ao serviço desse saber.

 

O Mosteiro da Batalha, onde a empresa realizou vários trabalhos, surgiu também como a primeira grande referência visual da apresentação da Gárgula Gótica.

Reconstruir a memória do original desaparecido

Se na Batalha havia património para conservar, em Espinho o desafio foi radicalmente diferente. A fachada original de um edifício de 1910 tinha desaparecido completamente. Quando a Gárgula Gótica entrou no projeto, não havia peças originais que pudessem servir de modelo. Restavam fotografias históricas.

 

A partir dessas imagens bidimensionais, a empresa teve de reconstruir uma fachada tridimensional, reinterpretando volumes, proporções, relevos e ornamentação. Foram reproduzidas 290 peças em pedra, com o objetivo de devolver ao edifício a identidade arquitetónica perdida. "Quando nos ligaram, não estava lá nada. Tínhamos apenas estas fotos”, explicou Meffert. O trabalho obrigou a sucessivas deslocações ao local, levantamento de medidas, ajustamentos ao projeto do arquiteto, modelação e escultura das diferentes peças.

 

A proximidade do edifício ao mar acrescentou outro problema: a agressividade da água salgada sobre um calcário particularmente vulnerável.

Mas o envolvimento da empresa acabou por ultrapassar a própria pedra. A Gárgula Gótica participou em diferentes componentes da fachada, da escultura ao metal, ao vitral e aos azulejos. "Foi muito difícil, mas realmente aprendemos muito. E estou muito orgulhoso do que a minha equipa conseguiu fazer”, afirmou Oliver Meffert.

 

É um exemplo particularmente expressivo de como a cadeia de valor da pedra não termina na extração ou na transformação industrial. A execução especializada, a capacidade de leitura do património, o conhecimento do material e o domínio da escultura podem ser decisivos para recuperar edifícios cuja memória física já desapareceu.

Restaurar é saber quando não substituir

Outros projetos apresentados mostraram intervenções menos espetaculares, mas igualmente reveladoras do conhecimento necessário para trabalhar a pedra existente.

 

Nas Caldas da Rainha, numa fachada do final do século XIX, a opção passou por conservar todas as pedras que ainda podiam permanecer no local e reproduzir apenas aquelas que já não tinham recuperação possível, procurando replicar formas e materiais. "O que não foi possível, tivemos de fazer novo. Exatamente igual, e tentando usar a mesma pedra”, explicou Meffert.

 

Já na escultura de D. Fernando, em Santarém, realizada por Leopoldo de Almeida, a intervenção limitou-se essencialmente à limpeza, à eliminação de fungos e líquenes ativos e à aplicação de uma proteção destinada a prolongar a conservação da obra.

 

São abordagens diferentes para situações diferentes. E essa capacidade de decidir entre conservar, reparar, replicar ou simplesmente proteger constitui também uma parte essencial do trabalho especializado sobre pedra.

 

Pedra histórica na arquitetura contemporânea

A fronteira entre património e contemporaneidade tornou-se particularmente clara com o projeto do Art Legacy Hotel, na Rua do Ouro, em Lisboa, igualmente destacado na apresentação. Segundo Meffert e Alzira Antunes, neste caso a pedra foi integrada num ambiente contemporâneo sem ignorar o contexto histórico da cidade. O objetivo foi alcançar "um equilíbrio entre elegância, funcionalidade e património”.

O exemplo ilustra uma realidade particularmente relevante para o setor: preservar o património não significa necessariamente reproduzir o passado. A pedra natural pode ser o elemento capaz de estabelecer continuidade entre edifícios históricos, novas funções e linguagens arquitetónicas contemporâneas.

 

Da escultura de 25 toneladas ao mobiliário exclusivo

A segunda parte da apresentação afastou-se progressivamente da conservação para mostrar outra dimensão do trabalho da Gárgula Gótica: a pedra como matéria-prima da criação artística e do design internacional.

 

Entre os exemplos surgiu uma escultura produzida para o festival Coachella, na Califórnia, executada a partir de uma pedra com cerca de 25 toneladas, posteriormente reduzida para cerca de 16. A obra para o festival norte-americano é igualmente um dos projetos destacados no portefólio apresentado em PowerPoint.

 

Seguiram-se peças de mobiliário e objetos realizados em colaboração com vários designers internacionais. Também aqui, tecnologia e trabalho manual surgem lado a lado. Algumas peças são previamente cortadas em CNC, mas o processo continua depois pelas mãos dos artesãos. "Tudo é feito à mão. É uma peça única. Não é feita por camadas: é uma só peça”, explicaram ao apresentar um desses trabalhos em pedra portuguesa.

 

A Gárgula Gótica desenvolveu igualmente a sua própria marca, Handmade Stone Design, através da qual apresenta peças de edição limitada e criações próprias que têm participado em exposições e recebido reconhecimento internacional.

A apresentação percorreu ainda trabalhos para os Haas Brothers, peças em mármore, uma estrutura para suportar um livro de Rihanna, uma banheira escultórica, mobiliário combinando pedra com vidro, cerâmica ou aplicações de ouro e diferentes objetos de coleção.

 

O PowerPoint levado à IV Conferência Internacional da ANIET resumiu esta vertente simplesmente como "Design Luxury Pieces” – a demonstração de que o mesmo conhecimento acumulado na escultura e no património pode encontrar mercado em objetos contemporâneos de elevada diferenciação e valor acrescentado.

 

Tecnologia só muda ferramentas

Dos elementos góticos do Mosteiro da Batalha às peças únicas destinadas ao mercado internacional de design, a mensagem deixada pela Gárgula Gótica foi sobretudo a da continuidade de um saber.

 

CNC, modelação, moldes, silicone ou processos digitais podem acelerar etapas e melhorar a precisão. Mas o resultado continua dependente do conhecimento da pedra, da capacidade de interpretar uma forma, de escolher um material compatível e de executar o acabamento certo.

 

Para um setor como o da pedra natural portuguesa, o percurso apresentado pela Gárgula Gótica revela também uma possibilidade de valorização que vai muito além da venda da matéria-prima: transformar conhecimento técnico e artesanal em projetos especializados, peças exclusivas e serviços de elevada incorporação de valor.

 

Meffert e Alzira Antunes, encerraram a apresentação quase como a tinham começado, regressando à ligação entre rigor técnico e envolvimento pessoal com o ofício. "A forma como fazemos e executamos o trabalho é regida por normas internacionais, porque amamos o que fazemos e fazemos o que amamos. É uma verdadeira paixão”.

 

Talvez seja precisamente essa combinação – pedra, conhecimento, tecnologia e paixão pelo ofício – que explica como uma empresa pode começar por reconstruir uma folha de pedra num monumento medieval e acabar a executar algumas das mais inesperadas peças do design contemporâneo.