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27/08/26
Passaporte Digital pode transformar a circularidade da pedra em vantagem competitiva
O setor prepara-se para um novo modelo em que os dados acompanharão os materiais ao longo de todo o ciclo de vida dos edifícios. Pedro Mêda, do ICS-FEUP, sustenta que a pedra natural parte com uma vantagem decisiva: representa uma parcela significativa da massa construída e pode ser desmontada, reutilizada e manter valor durante sucessivos ciclos de utilização. E mostrou como a ANIET e as empresas podem antecipar uma transformação que cruza sustentabilidade, circularidade e competitividade.
O Passaporte Digital de Produto (DPP) está a chegar à construção e promete alterar a forma como fabricantes, projetistas e restantes agentes da cadeia de valor identificam e acompanham os materiais utilizados nos edifícios. Para a indústria da pedra natural, porém, esta transformação pode representar bastante mais do que uma nova exigência de informação: pode ser o instrumento que permita demonstrar, ao longo de décadas, uma das principais vantagens competitivas do material – a sua capacidade de permanecer em circulação.
Foi essa uma das mensagens centrais deixadas por Pedro Mêda, do Instituto para a Construção Sustentável (ICS), da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, durante a IV Conferência Internacional "Portuguese Stone – The Natural Path”, promovida pela ANIET e co financiado por COMPETE 2030, Portugal 2030 e União Europeia.
O ICS está já a trabalhar com a Associação e com empresas do subsetor na preparação de protótipos do que Mêda chamou Passaportes Digitais de Produto Voluntários (VDPP), procurando reunir e estruturar informação que, em grande medida, os próprios produtores já possuem.
"Temos estado em contacto com empresas. Temos identificado os dados que já existem. E é a partir daí que começamos”, explicou Pedro Mêda. Mas compreender a importância do Passaporte Digital implica, segundo o investigador, olhar primeiro para uma realidade muito física da construção.
Quanto pesa um edifício?
Pedro Mêda lançou a pergunta à audiência: quanto pesa este edifício? Arquitetos e engenheiros estão habituados a decompor uma construção em custos. Sabem, or estimativas muito próximas da realidade, quanto representa uma fachada, as janelas ou o terreno de implantação.
Todavia, muito menos habitual é olhar para um edifício através da massa dos materiais que o constituem. "Se considerarmos o peso, sabemos quanto pesa o edifício? Isto pode ser um pouco mais difícil de entender”, observou. E acrescentou uma segunda questão, ainda mais importante: "Qual a relevância dos materiais que compõem o edifício?”
Utilizando como exemplo a Casa da Música, no Porto, edifício projetado pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas – e que acolheu a Conferência Internacional da ANIET – com forte presença de betão armado, Pedro Mêda chamou a atenção para a enorme proporção de materiais minerais presente numa construção. "Diria facilmente que 90% é pedra, pedra natural. É aí que reside a oportunidade”.
A afirmação não significa, naturalmente, que 90% do edifício seja constituído por revestimentos ou blocos de pedra ornamental. A perspetiva apresentada é a da massa mineral da construção, incluindo a presença dos agregados naturais no próprio betão.
E é precisamente essa dimensão que, perante uma economia que procura reduzir a extração de novos recursos e manter os materiais em circulação durante mais tempo, dá uma nova importância à pedra.
A pedra não acaba quando o edifício acaba
"A pedra natural pode ser reutilizada, ou deveria poder ser reutilizada, e, caso contrário, deveria ser reaproveitada”, defendeu Pedro Mêda. É aqui que a economia circular entra no centro da discussão.
Um bloco ou uma chapa de pedra retirados de uma construção podem, em determinadas condições, voltar a ser instalados. Se as dimensões ou o acabamento já não forem adequados, o material pode ser novamente cortado ou receber um novo acabamento para servir outra aplicação arquitetónica.
Na documentação de apoio à palestra, Mêda identificou precisamente como vantagens da utilização circular da pedra a possibilidade de remoção e reinstalação com pouco processamento, o recorte e reacabamento das peças e a preservação do valor cultural do material, simultaneamente reduzindo a necessidade de recorrer a novos recursos.
Para Pedro Mêda, isso coloca a pedra numa posição particularmente favorável dentro da lógica da economia circular. "Esta é a oportunidade que representa muito para a pedra natural hoje, porque é pesada, pode ser reutilizada e reciclada. Portanto, ela está nos níveis mais altos da pirâmide em termos de economia circular”, declarou.
Ou seja, aquilo que tradicionalmente poderia ser visto como uma característica física do material – o seu peso e permanência na construção – ganha uma leitura diferente quando se considera o volume de recursos que poderá deixar de ser extraído se os elementos existentes forem recuperados e colocados novamente em circulação.
Circularidade começa na prancheta
Há, contudo, uma condição: para reutilizar amanhã é necessário projetar de forma diferente hoje. Pedro Mêda chamou a atenção para o conceito de design for disassembly, ou projeto para desmontagem.
No caso da pedra natural, significa conceber soluções que permitam retirar as peças no final da sua primeira utilização sem as destruir. Fixações mecânicas, dimensões normalizadas e ligações acessíveis são alguns dos princípios identificados na apresentação.
"Temos de pensar nos conceitos de desmontagem. Precisamos de conceber, aplicar princípios de design para a pedra, preservação do valor material e integração colaborativa”, afirmou Pedro Mêda.
A mudança é particularmente relevante porque desloca a circularidade do final da vida do edifício para o próprio momento da conceção. Já não se trata apenas de perguntar o que fazer com uma pedra quando o edifício é demolido. Trata-se de projetar o edifício desde o início sabendo que aquela pedra poderá ter uma segunda ou terceira vida.
Passaporte Digital dará memória aos materiais
É neste contexto que o Passaporte Digital de Produto ganha especial importância. Para reutilizar um material décadas depois da sua primeira aplicação não basta conseguir retirá-lo fisicamente de um edifício. É necessário saber que material é, quais são as suas características, que desempenho apresenta e que informação foi disponibilizada pelo fabricante. O DPP poderá funcionar precisamente como essa memória digital.
Mêda explicou que declarações de desempenho, declarações ambientais de produto e características técnicas que já fazem parte da documentação das empresas podem ser reunidas e digitalizadas. "Se houver um fabricante que tenha uma declaração de desempenho, todos estes dados podem ser digitalizados e colocados aqui juntamente com o nome, a declaração ambiental do produto e todas as características”, referiu.
O processo passa, por isso, menos por produzir toda uma nova camada de informação do que por encontrar, reunir, organizar e tornar utilizáveis os dados existentes. "Só precisamos de recolher tudo, ir às diferentes divisões da indústria ou do fabricante, da empresa, e tentar encontrar, reunir e compilar a informação. É isso que temos feito”, explicou o investigador.
Segundo Pedro Mêda, o trabalho desenvolvido permite já avançar para uma solução aplicável às empresas do setor. "Todos os fabricantes ou produtores de pedra natural podem, hoje, recolher toda a informação, fornecer-nos, e nós podemos disponibilizá-la naquilo a que hoje chamamos Passaporte Digital de Produto Voluntário, ou protótipo”.
Do passaporte ao modelo digital do edifício
A ambição vai, porém, mais longe do que criar uma ficha digital associada ao produto. Os dados poderão ser ligados aos modelos tridimensionais dos edifícios através do BIM – Building Information Modeling, fazendo com que as características de determinada pedra acompanhem digitalmente o elemento instalado. "Terei dados digitais numa ferramenta que poderei ligar a modelos 3D”, explicou Pedro Mêda. A ferramenta poderá integrar "todas as propriedades anexadas pelo fabricante, dados verificados e certificados, ligados ao modelo digital 3D”.
A consequência é particularmente importante para a circularidade. Se, daqui a várias décadas, um edifício for remodelado ou desconstruído, será possível saber que materiais se encontram no seu interior e conhecer as propriedades da pedra que se pretende recuperar. O que hoje é um elemento incorporado num edifício poderá então passar a ser encarado como um recurso disponível para um novo projeto.
Foi exatamente essa continuidade entre os diferentes ciclos de utilização que Pedro Mêda procurou evidenciar: a pedra pode cumprir "o seu propósito no ciclo de vida de um edifício” e, terminado esse primeiro ciclo, permitir decidir "se vamos reutilizá-la ou reaproveitá-la”.
Sustentável por natureza, mas obrigada a prová-lo
A pedra parte, neste novo quadro, com características que lhe são favoráveis. É um material natural, inerte e não tóxico, tem elevada durabilidade e longevidade e requer relativamente pouca manutenção. A própria apresentação de Pedro Mêda sublinhou que a utilização de pedra evita processos químicos complexos e reduz as necessidades de substituição ao longo do ciclo de vida. Daí o título escolhido pelo investigador para a sua intervenção: "Natural Stone – Naturally Sustainable”.
Mas Mêda deixou também um aviso ao setor: possuir estas características já não é suficiente. "Todos sabemos que estes valores deveriam ser suficientes na construção atual. Mas não são, devido às novas tecnologias. Por isso, temos de explorar as oportunidades”. E acrescentou: "Estamos num momento em que podem surgir novas oportunidades para a utilização da pedra natural, claro, alavancadas pela sustentabilidade”.
A diferença estará, cada vez mais, na capacidade de demonstrar essas vantagens através de informação verificável.
Europa junta transição verde e transição digital
A transformação enquadra-se numa mudança mais ampla da política europeia para a indústria e para a construção. A estratégia apresentada por Pedro Mêda assenta na chamada dupla transição, ecológica e digital, através da qual as cadeias de valor deverão contribuir para uma economia mais verde, mais digital e mais resiliente.
No setor da construção, esta evolução cruza desempenho dos produtos, impacto ambiental, resíduos e digitalização, dimensões que acabarão por convergir precisamente na informação associada ao produto. "Não podemos fazer nada disto sem dados digitais e, por isso, precisamos da digitalização”, salientou Pedro Mêda.
O Passaporte Digital surge, assim, não isoladamente, mas como peça de uma transformação mais profunda: saber que materiais existem nos edifícios, conhecer as suas propriedades e conservar essa informação para que possam permanecer em circulação.
"É fácil para os produtores? Não, não é”
Pedro Mêda não procurou, contudo, apresentar esta transição como um processo simples. Questionado no final da sessão sobre as exigências que se aproximam, respondeu sem rodeios: "É fácil para os produtores de pedra? Não, não é. É difícil, muito difícil”.
No entanto, é precisamente para antecipar essas dificuldades que o ICS tem vindo a trabalhar com a ANIET. "O nosso papel como ICS é facilitar. Assim, posicionamo-nos entre a política, a academia e a indústria. E é por isso que temos trabalhado com a ANIET para facilitar as coisas”, afirmou.
O investigador descreveu o ICS como uma espécie de "tradutor” entre regulamentação, investigação e realidade empresarial, procurando antecipar dificuldades e tornar as novas exigências "implementáveis”. E terminou com uma mensagem dirigida precisamente a quem possa olhar para esta transformação sobretudo como mais uma camada de complexidade regulamentar: "Não se assuste. Estamos aqui para ajudar”. Porque, apesar dos desafios, concluiu Pedro Mêda, "o valor acrescentado para a cadeia de valor pode ser enorme”.
Para o setor português da pedra natural, essa poderá ser precisamente a questão decisiva. Num mercado em que a sustentabilidade deixa progressivamente de ser apenas uma declaração de intenções para passar a exigir dados, rastreabilidade e demonstração de circularidade, as próprias características físicas da pedra podem tornar-se uma vantagem competitiva – desde que as empresas estejam preparadas para a provar.