Notícias - Preservar o património em pedra exige proteger materiais, técnicas e ofícios

27/08/26

Preservar o património em pedra exige proteger materiais, técnicas e ofícios

Na Conferência Internacional da ANIET, o arquiteto Francisco Sousa Rio mostrou como a geologia moldou a arquitetura regional portuguesa e alertou para a perda de conhecimento essencial à conservação dos edifícios históricos.

 

Portugal pode ser um território relativamente pequeno, mas a diversidade da sua arquitetura conta uma história profundamente ligada à geologia. Do granito do Norte ao calcário do Centro, passando pelo mármore alentejano, no Sul, e pelo xisto do Douro, a pedra ajudou a definir paisagens, técnicas construtivas e identidades regionais. Foi esta relação entre território, arquitetura e pedra natural que Francisco Sousa Rio, arquiteto da Câmara Municipal do Porto, levou à IV Conferência Internacional "Portuguese Stone – The Natural Path”, promovida pela ANIET e co financiado por COMPETE 2030, Portugal 2030 e União Europeia, numa apresentação que terminou com uma mensagem inequívoca: proteger o património construído em pedra é também preservar conhecimento, memória e ligação ao território.

 

Quando era o território a escolher os materiais

Francisco Sousa Rio começou longe das grandes obras monumentais. Em vez de castelos, palácios ou edifícios excecionais, escolheu olhar para a arquitetura vernacular – aquela que nasceu das necessidades quotidianas, dos materiais disponíveis em cada lugar e de um conhecimento construtivo transmitido entre gerações. "Viajar por Portugal é uma viagem pela sua paisagem natural e pela diversidade do seu ambiente construído”, afirmou, sublinhando que a arquitetura tradicional portuguesa "nasceu daquilo que a natureza lhe ofereceu”.

É uma arquitetura sem o protagonismo do autor e, muitas vezes, sem projeto formal, construída a partir de um saber acumulado durante séculos. O mestre de obra e o pedreiro transmitiam ao aprendiz não apenas uma técnica, mas uma memória de soluções testadas: o que funcionava melhor, o que era mais adequado ao clima, aos recursos existentes e às necessidades de cada comunidade.

 

Dessa transmissão, explicou Sousa Rio, nasceu uma extraordinária diversidade de formas e soluções. Uma arquitetura que desenvolveu regras próprias de composição e proporção e que estabeleceu uma relação tão próxima com o território que se tornou imediatamente reconhecível.

 

O levantamento da arquitetura popular portuguesa realizado na década de 1950 adquiriu, por isso, particular importância. Fixou um retrato do país precisamente num momento de mudança profunda dos sistemas construtivos, quando o betão armado começava a substituir materiais tradicionais. E uma das conclusões desse levantamento era particularmente significativa para o tema da conferência: grande parte das construções existentes no território português era feita em pedra.

 

Uma geografia escrita em granito, calcário, mármore e xisto

A partir daí, Francisco Sousa Rio conduziu a assistência numa viagem pelo território português em que a arquitetura acompanha quase naturalmente a geologia. "Cada região é marcada pelo tipo de pedra predominante”, sintetizou.

 

No Norte, a paisagem montanhosa e a abundância de granito deram origem a uma arquitetura mais austera, dominada pela resistência e pela permanência desta pedra. No Centro, o calcário, mais maleável, permitiu maior delicadeza no trabalho e abriu caminho à ornamentação. Mais a sul, no denominado triângulo de Estremoz, Borba e Vila Viçosa, o mármore emerge como a grande referência pétrea do território alentejano.

 

Na região de Lisboa e na Estremadura, voltou a destacar-se o calcário. Para Sousa Rio, a própria maleabilidade da pedra ajudou a criar condições para a exuberância artística e para o desenvolvimento de linguagens arquitetónicas caracterizadas pela riqueza de detalhe, entre as quais o Manuelino.

 

A norte da Serra da Estrela, porém, é o granito que volta a dominar. No Minho, descreveu o arquiteto, o granito é "a espinha dorsal”: uma rocha abundante, acessível, extremamente dura, resistente e capaz de atravessar séculos. Está nos castelos e nas muralhas, nas pontes e igrejas, mas também nas casas senhoriais e nas construções correntes que pontuam a paisagem.

 

E mesmo esta geografia tem as suas exceções. No Douro, os solos xistosos determinaram outras soluções, com o xisto aplicado nas paredes e a ardósia nas coberturas, enquanto o granito continuou reservado para elementos estruturais, nomeadamente vãos, pilares e suportes de varandas.

 

Porto: "o granito é o ADN da cidade”

Foi no Porto que a apresentação ganhou a sua expressão mais concreta. "Chegamos, assim, à cidade do Porto, onde o granito não é apenas um material de construção, é o ADN da cidade”, afirmou Francisco Sousa Rio. A frase resume uma relação que atravessa praticamente todas as escalas da paisagem urbana portuense. O granito ergue fachadas e monumentos, estrutura edifícios e pavimenta ruas. O cinzento da pedra estabelece, depois, um diálogo visual com o branco das paredes e o brilho dos azulejos, compondo o jogo de luz, sombra, cor e textura característico da cidade.

Essa relação é também histórica. Segundo o arquiteto, a existência de construção em pedra permite identificar vestígios de um povoado pré-romano na colina da atual Sé, habitado há pelo menos 2500 anos, com muralhas sucessivamente reconstruídas e ampliadas ao longo do tempo.

 

Séculos depois, a capacidade dos pedreiros portuenses tornaria possível outra das páginas mais reconhecíveis da arquitetura da cidade: o Barroco. Sousa Rio evocou a chegada do artista italiano Nicolao Nazoni em 1725 e a forma como a qualidade dos seus desenhos encontrou correspondência na capacidade técnica dos artesãos locais, permitindo materializar algumas das obras que viriam a marcar decisivamente a imagem do Porto.

 

Mas a pedra não ficou confinada às igrejas e aos edifícios monumentais. O crescimento da burguesia mercantil ligada ao comércio do vinho levou o granito trabalhado para a arquitetura residencial, onde surge em fachadas, escadas, varandas, molduras e mísulas.

 

De resto, as imagens apresentadas por Francisco Sousa Rio reforçaram essa leitura da cidade ao detalhe: da Rua das Flores e das suas mísulas barrocas ao Largo de São Domingos, passando pela Rua dos Caldeireiros, onde alvenaria de pedra, azulejos, elementos metálicos e carpintarias coexistem na mesma composição, e pela Rua de São Miguel.

 

É precisamente nesta combinação de materiais e ofícios que reside uma parte importante da identidade construída do Porto.

 

Cidade de camadas que não podem ser apagadas

Há ainda uma circunstância que, segundo Sousa Rio, torna o Porto particularmente valioso: a cidade não sofreu uma grande catástrofe – um incêndio ou um terramoto de grande dimensão – capaz de apagar de forma extensa os testemunhos das diferentes épocas. Chegou, assim, ao presente como uma sobreposição de "camadas de História”, onde permanecem elementos de diferentes períodos, desde molduras de janelas a divisórias de varandas, fachadas, cantarias e soluções construtivas que permitem ler a evolução da própria cidade.

 

Esse património coloca, contudo, um desafio particularmente complexo: não basta preservá-lo fisicamente. É necessário conseguir que a cidade continue viva e habitada, tarefa que Francisco Sousa Rio considerou cada vez mais difícil num contexto urbano fortemente condicionado pelo turismo.

 

A questão ultrapassa, portanto, a conservação estética de fachadas. Trata-se de decidir que cidade se transmite às próximas gerações e de perceber até que ponto a modernização pode ocorrer sem destruir os elementos que tornam cada território singular.

 

Preservar não é imitar

Foi neste ponto que a apresentação assumiu um tom mais crítico. Para Sousa Rio, a crescente introdução de uma modernidade arquitetónica de inspiração internacional pode contribuir para apagar diferenças regionais e romper a relação historicamente estabelecida entre construção e território. "Preservar estas construções em pedra é preservar a nossa História, a nossa ligação à terra”, afirmou.

 

Mas preservar não significa reproduzir superficialmente o passado ou acrescentar elementos tradicionais a construções contemporâneas numa tentativa de lhes conferir artificialmente uma aparência histórica. A defesa do património exige uma abordagem muito mais profunda.

"Valorizar significa manter as técnicas e os materiais originais, preservar os ofícios e as profissões a eles associadas, como a alvenaria, a carpintaria e a metalurgia”, sublinhou Francisco Sousa Rio.

 

Sem conhecimento e sem ofícios não haverá património

É talvez aqui que a intervenção de Francisco Sousa Rio mais diretamente interpela o setor da pedra natural. Porque conservar edifícios históricos não depende apenas da existência do material. Depende da existência de quem saiba selecioná-lo, cortá-lo, aparelhá-lo, assentá-lo, recuperá-lo e interpretar os sistemas construtivos em que foi originalmente utilizado. E esse património imaterial está também em risco.

 

"Alguns destes ofícios encontram-se agora à beira da extinção”, alertou o arquiteto, defendendo a criação de condições para que conhecimentos e saberes tradicionais possam continuar a ser transmitidos entre gerações e permaneçam disponíveis para a conservação e o restauro dos edifícios antigos.

 

Para uma indústria que trabalha diariamente com um dos materiais mais antigos da arquitetura, a reflexão ganha particular relevância. A pedra natural não é apenas um produto extraído, transformado e aplicado no presente. É igualmente parte de um património construído durante séculos e de uma cadeia de conhecimento técnico que importa preservar.

 

Foi essa a mensagem que ficou da viagem proposta por Francisco Sousa Rio: a identidade dos territórios também se lê nos materiais com que foram construídos. E, no caso português, poucas matérias contam essa história com tanta permanência como a pedra.