Notícias - Mais produção, mais segurança e menos desperdício é a identidade das pedreiras do futuro que já começou
27/08/26
Mais produção, mais segurança e menos desperdício é a identidade das pedreiras do futuro que já começou
Na IV Conferência Internacional "Portuguese Stone – The Natural Path", organizada pela ANIET, Luís Sousa Bento, da Fravizel, mostrou como automação, electrificação, digitalização e novas tecnologias de corte podem transformar a exploração de pedra natural. A mensagem deixada às empresas do sector foi clara: inovar já não significa só produzir mais, mas sim retirar mais valor de cada metro cúbico extraído, reduzir custos e desperdícios, e afastar as pessoas das operações de maior risco.
Duplicar, descarbonizar, digitalizar e descomplicar. Luís Sousa Bento resumiu nestes quatro "D” a visão da Fravizel para a pedreira do futuro. Mas a principal mensagem deixada na IV Conferência Internacional "Portuguese Stone – The Natural Path”, promovida pela ANIET e co financiado por COMPETE 2030, Portugal 2030 e União Europeia, foi outra: esse futuro já começou.
Máquinas operadas à distância, informação acessível em tempo real, equipamentos electrificados, novos processos de corte e automatismos de segurança estão a mudar a economia das pedreiras. O objectivo é simples de enunciar e mais difícil de executar: extrair mais valor da mesma pedra, com menos energia, menos desperdício e menos exposição humana ao risco.
"Estamos a fazer mais com menos”, sintetizou Luís Sousa Bento.
De 2.800 para 6.000 metros cúbicos
A Fravizel levou números à conferência da ANIET. Num caso de exploração de granito no Brasil, a produção passou, segundo os dados apresentados, de 2.800 para 6.000 metros cúbicos, enquanto o número de trabalhadores baixou de 300 para 160. Numa exploração portuguesa de calcário, a produção evoluiu de 600 para 1.100 metros cúbicos, com três trabalhadores em vez de seis. E, num caso de travertino em Itália, a mesma equipa de três pessoas passou de 150 para 400 metros cúbicos.
Com câmaras e sistemas de controlo à distância, um operador protegido numa cabine pode acompanhar mais do que uma máquina. A lógica inverte uma realidade histórica do sector: em vez de várias pessoas concentradas em torno de um equipamento, a tecnologia permite hoje afastar o trabalhador da zona de maior risco e multiplicar a sua capacidade operacional.
48 minutos que valeram 3.000 euros
Talvez o exemplo mais imediato da relação entre tecnologia, sustentabilidade e rentabilidade tenha surgido com um caso concreto. Uma mancha negra fazia prever que a pedra não teria aproveitamento comercial. Em vez de a rejeitar, decidiu-se testar o bloco através de corte com fio diamantado. A mancha revelou-se apenas superficial. "Um corte, 48 minutos, e encaixaram 3000 no bolso”, contabilizou Sousa Bento.
O episódio condensa uma das ideias fortes da intervenção: aumentar a rentabilidade não obriga necessariamente a extrair mais. Pode significar simplesmente perder menos do que já foi extraído.
Dez centímetros podem valer 871 mil euros
Essa diferença torna-se ainda mais expressiva quando multiplicada à escala de uma exploração. Na comparação apresentada pela Fravizel para o esquadrejamento de blocos, a perfuração implica uma margem de cerca de 15 centímetros, contra cinco centímetros no corte com fio diamantado, significando dez centímetros de pedra recuperados por face.
No bloco usado como exemplo, a diferença representava 1,8 metros cúbicos. Considerando cinco blocos por dia, 22 dias de produção durante 11 meses, o ganho potencial ascenderia a 2.178 metros cúbicos por ano. Ao valor indicativo de 400 euros por metro cúbico utilizado na simulação, estamos perante 871.200 euros de receita potencial adicional.
Aqui, descarbonização e economia deixam de ser discursos paralelos: menos operações, menos pedra perdida e menos energia podem significar também mais margem por cada bloco extraído.
A pedreira no telemóvel
A transformação passa igualmente pelos dados. O representante da Fravizel alegou terem sido desenvolvidas sete plataformas através das quais é possível acompanhar informação proveniente das máquinas – funcionamento, corte, perfuração, consumos ou períodos de paragem – mesmo quando os equipamentos estão a milhares de quilómetros.
Sousa Bento colocou a questão em termos empresariais: "Se [a máquina] não estiver a funcionar, qual será o custo real da sua pedra?”. A pergunta vai ao cerne da gestão de uma pedreira. Uma máquina parada não é apenas um problema técnico: são minutos ou horas improdutivas que entram no custo final de cada metro cúbico.
Digitalizar significa, por isso, saber onde, quando e porquê se está a perder produtividade – e poder intervir antes que essa perda se acumule.
Segurança: tirar as pessoas de onde não precisam de estar
Foi, contudo, na segurança que a tecnologia ganhou uma dimensão que ultrapassa produtividade e custos. "Colocamos sempre as pessoas em primeiro lugar”, sublinhou Luís Sousa Bento.
Nos equipamentos apresentados, a ruptura de um fio ou a detecção de uma anomalia provoca a paragem automática da máquina. Noutras soluções, a entrada de uma pessoa numa área protegida interrompe imediatamente equipamento e abastecimento de água – reduzindo simultaneamente risco, consumo energético e desperdício. E há uma mudança ainda mais elementar: se a máquina pode ser comandada à distância, o operador deixa de precisar de estar junto do perigo.
De acordo com Sousa Bento, desde 2014 as soluções desenvolvidas pela empresa que representa permitiram reduzir em 10% os acidentes de trabalho nas operações consideradas. Um resultado que classificou como "um número bastante expressivo”.
Descarbonizar sem perder competitividade
A sustentabilidade apareceu, assim, na intervenção menos como uma obrigação exterior à empresa e mais como um factor de competitividade. A Fravizel apresentou equipamentos capazes de, em determinadas condições de operação, obterem reduções muito significativas de consumo energético e emissões, ao mesmo tempo que defendeu a electrificação, a tecnologia híbrida e a redução do número de operações necessárias.
A estratégia passa por transformar despesa operacional em investimento tecnológico. "Transformamos os custos operacionais em oportunidades de investimento”, alardeou Sousa Bento na sua apresentação.
É uma equação particularmente relevante num sector intensivo em energia e equipamento: se uma máquina consome menos, aproveita melhor a matéria-prima e produz mais, o investimento ambiental deixa de representar apenas um custo de adaptação. Passa a poder representar uma vantagem económica.
Tecnologia portuguesa para mais de 64 países
A mensagem ganhou também uma dimensão industrial portuguesa. A Fravizel indicou trabalhar em mais de 64 países, possuir cerca de 15 mil contactos internacionais, empregar mais de 150 trabalhadores e canalizar 20% para I&D, contabilizando mais de 131 pedidos de patente. São números que ajudam a enquadrar a conclusão deixada.
A pedreira do futuro não será simplesmente uma pedreira que extrai mais depressa. Será aquela que sabe quanto produz, quanto perde, quanto consome e onde pode retirar mais valor da mesma pedra. Terá mais dados e menos desperdício. Mais automação e menos exposição ao risco. Menores consumos e maior capacidade produtiva.
E, depois dos exemplos mostrados por Luís Sousa Bento, talvez a questão já não seja saber como será a pedreira do futuro; a questão é saber quanto tempo falta para que deixe de ser chamada futuro.