Notícias - Pedra portuguesa tem nos EUA e nas parcerias a rota para crescer no mundo

27/08/26

Pedra portuguesa tem nos EUA e nas parcerias a rota para crescer no mundo

Portugal já está entre os grandes fornecedores internacionais de pedra cortada à medida, mas Vince Marazita considera que existe margem para ir muito mais longe. Estados Unidos, hotelaria e residencial de luxo, grandes infraestruturas e arquitetura religiosa estão entre as oportunidades – desde que as empresas apostem na qualidade, conheçam quem decide os projetos e construam parcerias nos mercados de destino.

 

A pedra portuguesa tem qualidade, capacidade industrial e um posicionamento internacional que lhe permite disputar projetos de elevada complexidade com os maiores produtores mundiais. O próximo salto, porém, exige mais do que exportar material: exige entrar mais cedo nos projetos, aproximar-se de arquitetos, designers e promotores, garantir controlo de qualidade ao longo de toda a cadeia e, sobretudo, criar alianças internacionais. Foi esta a mensagem deixada por Vince Marazita, presidente da Stone Trends International, na IV Conferência Internacional "Portuguese Stone – The Natural Path”, promovida pela ANIET e co financiado por COMPETE 2030, Portugal 2030 e União Europeia.

 

Com quatro décadas de experiência em consultoria de pedra natural e uma equipa envolvida em mais de 80 edifícios nos últimos dez anos, Marazita conhece o setor a partir de uma posição particularmente próxima dos donos de obra. A Stone Trends International acompanha os projetos desde a escolha da pedra e da origem do material até à seleção dos fabricantes, especificações, inspeções e instalação.

 

E foi a partir dessa experiência que deixou uma mensagem particularmente relevante para a indústria portuguesa: Portugal já tem lugar entre os melhores. Agora tem de transformar essa capacidade industrial em mais presença nos projetos internacionais.

 

Portugal na primeira linha do corte à medida

Para Vince Marazita, é importante distinguir os vários mercados da pedra natural. Há a distribuição de chapas e ladrilhos, há o fornecimento de blocos e há o segmento em que ele próprio concentra grande parte da atividade: os projetos de pedra cortada à medida, incluindo fachadas, interiores e paisagismo. É precisamente aí que identifica uma das maiores oportunidades para as empresas portuguesas. "Para este público, diria que as melhores oportunidades estarão no corte à medida para o paisagismo”, afirmou.

 

Nos projetos de grande dimensão, explicou, são necessários fabricantes capazes não apenas de produzir, mas de executar peças complexas, assegurar volumes significativos e cumprir calendários rigorosos. E, nesse domínio, colocou Portugal diretamente entre as referências mundiais.

 

Na sua apresentação, os slides identificavam Itália, China e Portugal como os três principais fornecedores de cut-to-size para os EUA, associando a competitividade portuguesa a uma combinação de mão-de-obra, investimento de capital, automação e disponibilidade de materiais. Marazita foi ainda mais longe na apreciação da capacidade instalada nacional. "Pensem no tamanho do vosso país e em quanta concorrência têm com esses outros países. É incrível. A nível internacional, diria que Portugal e Itália provavelmente competem ainda mais do que a China”, exaltou o consultor.

 

É uma vantagem competitiva que, na sua opinião, deve ser explorada sobretudo em projetos tecnicamente exigentes, onde preço e volume deixam de ser os únicos critérios e onde passam a contar capacidade de engenharia, precisão, resposta industrial e controlo de qualidade.

 

Trabalhar com os EUA

Entre os mercados internacionais apontados durante a apresentação, um destacou-se claramente: os Estados Unidos (EUA). Marazita recordou que o país se tornou fortemente dependente da importação de pedra trabalhada, em larga medida porque a capacidade industrial doméstica não acompanhou a dimensão do mercado. Ora, para as empresas portuguesas, essa circunstância representa uma oportunidade direta. "Como oportunidade internacional, se ainda não está a trabalhar com os EUA, deveria estar. Pense nisso”, desafiou.

 

Portugal ainda não figura, segundo os dados apresentados, entre os cinco maiores exportadores globais de pedra para os EUA, mas Marazita sublinhou a trajetória recente de crescimento das exportações portuguesas para aquele destino e admitiu que essa situação poderá alterar-se. A mensagem para as empresas foi, por isso, inequívoca: há espaço para ganhar quota num dos maiores mercados importadores mundiais, mas não basta esperar pelas encomendas. É necessário conhecer os canais certos e aproximar-se de quem especifica e decide.

 

Dinheiro está na gama alta

Se o mercado americano é uma prioridade geográfica, o segmento de luxo surge como uma prioridade comercial. Marazita apresentou como exemplo um grande empreendimento de uso misto em Beverly Hills, avaliado em cerca de dois mil milhões de dólares, com torres residenciais e hotelaria de topo. O projeto serviu para ilustrar um princípio que considera estrutural para o setor. "A pedra estará sempre no segmento de gama alta”.

 

E acrescentou uma recomendação concreta: as empresas devem conhecer os arquitetos de topo, os empreiteiros que executam projetos premium e os promotores responsáveis pelos grandes empreendimentos. A hotelaria internacional oferece uma via particularmente eficiente para essa aproximação.

 

Em vez de abordar cada hotel individualmente, sugeriu, os fornecedores devem identificar os centros de design, os projetistas e os gabinetes responsáveis pelas grandes cadeias hoteleiras. "Quem são os designers destes hotéis? Quem projeta os hotéis de luxo? Quem projeta os hotéis Marriott?”, questionou, defendendo que conhecer estas redes permite chegar a múltiplos projetos através de uma única relação profissional.

 

O residencial de elevado padrão constitui outra oportunidade expressiva, não apenas na Califórnia ou em Los Angeles, mas em diferentes regiões dos EUA onde existe procura por fachadas articuladas, calcários e soluções arquitetónicas inspiradas na tradição europeia.

 

Qualidade decide quem entra

A internacionalização, alertou Vince Marazita, não pode ser confundida com uma simples corrida ao volume. "Vão ouvir-me falar muito sobre qualidade, porque muitos de nós queremos concentrar-nos apenas na quantidade”, afirmou, advertindo que é fácil esquecer a qualidade "na mão-de-obra, nos blocos ou nas placas”.

 

A sua própria metodologia assenta na avaliação das fábricas, no acompanhamento da seleção dos materiais, na amostragem, na execução de dry lays e no controlo da correspondência entre aquilo que o arquiteto pretende e aquilo que a fábrica efetivamente produz. E há um ponto que considera decisivo nos projetos de gama alta: mistura e amostragem. "Parece simples, mas não é. Este é, provavelmente, o ponto crucial para o sucesso de projetos de gama alta”.

 

Para Marazita, trabalhar internacionalmente significa dominar uma longa cadeia de comunicação entre arquitetos, proprietários, consultores, pedreiras e transformadores, evitando que a intenção original do projeto se perca ao longo do percurso.

 

É também por isso que considera fundamental trabalhar com equipas e parceiros que conheçam o ambiente empresarial local: "Quando trabalha com projetos internacionais, precisa de pessoas que conheçam o ambiente local e os negócios locais”.

 

Mercado para o granito

Há ainda uma palavra que Marazita quer ver ganhar espaço no vocabulário comercial do setor: resiliência. Não no sentido empresarial, mas enquanto atributo do próprio material. "Resiliente é como dizer duradouro. É algo que vai durar muito tempo sob tráfego elevado”.

 

Esta ideia abre, na sua perspetiva, um campo particularmente interessante para o granito português: estações de metro, aeroportos, sistemas de transporte público, pavimentos urbanos e outros espaços submetidos a utilização intensiva. E também aqui Portugal tem escala produtiva para responder.

 

Marazita chamou a atenção para o facto de existirem relativamente poucas empresas no mundo capazes de executar grandes projetos com as dimensões que a indústria ibérica consegue suportar.

 

Mundial de 2030 vai além dos estádios

A realização do Campeonato do Mundo de Futebol de 2030 em Portugal, Espanha e Marrocos foi outro dos exemplos usados para mostrar como identificar oportunidades antes de elas chegarem às fábricas. Mais do que os próprios estádios, Marazita aconselhou as empresas a acompanharem todo o investimento que os grandes acontecimentos internacionais desencadeiam. "Não se trata apenas de um estádio”, salientou. "São as habitações que circundam a área. São as infraestruturas. É a revitalização dos parques. É a reforma das estradas”.

 

Ou seja, cada grande equipamento deve ser lido como o centro de um ecossistema mais vasto de investimento e de potenciais encomendas de pedra natural.

 

Empresas familiares têm de preparar sucessão

Nem todas as oportunidades identificadas por Marazita estão nos mercados externos. Algumas estão dentro do próprio setor. Num tecido industrial dominado por empresas familiares, o consultor chamou a atenção para a necessidade de preparar a sucessão e para a possibilidade de fusões, aquisições e parcerias empresariais.

 

"O valor da empresa reside também no conhecimento que possui”, recordou, questionando o que acontece quando a geração que acumulou esse conhecimento deixa a gestão. "A nova geração será crucial. As fusões e aquisições representam uma grande oportunidade”. Pedreiras, fábricas e equipamentos podem, nesse contexto, tornar-se instrumentos de crescimento e consolidação empresarial.

 

Mas a renovação não passa apenas pela propriedade das empresas. Passa também pelas pessoas que nelas trabalham. Marazita destacou a importância de atrair uma geração mais jovem, tecnologicamente preparada, para uma indústria que será profundamente influenciada pela automação durante a próxima década. Isso implicará investir em equipamento, melhores condições de trabalho e funções mais qualificadas. Sem essa renovação, advertiu, "podemos ficar para trás”.

 

Novas caravelas chamam-se parcerias

Foi, porém, na conclusão que Vince Marazita condensou a principal ideia da sua intervenção. Recorrendo à história portuguesa e à imagem da caravela, defendeu que o país vive uma espécie de nova Era dos Descobrimentos para a pedra natural. Só que, desta vez, o instrumento para chegar mais longe não será um navio. Serão as parcerias.

 

A apresentação de Marazita resumia a mensagem numa fórmula explícita: "A new Age of Discovery — Partnerships are the new Caravela”, apontando para alianças em Portugal, Itália, China e EUA. Marazita retomou a ideia perante a plateia: "As parcerias são a maior oportunidade”.

 

É assim, explicou, que uma pequena empresa familiar consegue ganhar escala internacional: associando-se a empresas e profissionais noutros mercados, partilhando conhecimento, contactos e capacidade comercial. E encontrou na própria caravela uma metáfora para as empresas portuguesas: "É isso que as empresas portuguesas são realmente. Pequenas e ágeis. Podem escolher os rumos que querem tomar”.

Da China aos EUA, a receita que deixou à indústria portuguesa foi, portanto, menos a de conquistar mercados isoladamente e mais a de construir redes capazes de levar a pedra portuguesa até aos projetos onde se decide o verdadeiro valor acrescentado. Para as empresas da ANIET, a conclusão é difícil de ignorar: Portugal já provou que sabe extrair e transformar pedra ao nível dos melhores do mundo. O desafio seguinte é estar onde os grandes projetos começam – e chegar lá (bem) acompanhado.