Notícias - Pedra reclama o seu lugar no património

27/08/26

Pedra reclama o seu lugar no património

Jorge Carvalho, investigador do LNEG, defendeu na 4.ª Conferência Internacional da ANIET que conhecer um monumento implica conhecer também a pedra que o tornou possível. O reconhecimento internacional das Heritage Stones abre novas perspetivas para a valorização das rochas portuguesas, a preservação das pedreiras históricas, o restauro e a continuidade sustentável da extração.

 

Há uma dimensão do património cultural que durante demasiado tempo ficou escondida à vista de todos: a geologia. Foi a partir desta ideia que Jorge Carvalho, geólogo e investigador do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), construiu a sua intervenção na 4.ª Conferência Internacional "Portuguese Stone – The Natural Path”, promovida pela ANIET e co financiado por COMPETE 2030, Portugal 2030 e União Europeia.

 

Se monumentos, palácios, igrejas e obras de arte são estudados pela sua arquitetura, pela sua história e pelos homens que os construíram, raramente se pergunta com o mesmo rigor de que pedra são feitos, de onde veio essa pedra e que pedreiras estiveram na origem desse património. É precisamente essa lacuna que o conceito internacional de Heritage Stones – Pedras Património – procura colmatar.

 

"Que pedra é esta?”

Jorge Carvalho começou por lançar uma provocação simples, mas suficientemente poderosa para alterar a forma como se olha para muitos dos grandes monumentos. "Os monumentos não são apenas conquistas artísticas e históricas. São artefactos geológicos construídos com as pedras da Terra”.

 

A frase sintetiza a tese que atravessou toda a apresentação. Ao visitar ou estudar um monumento, explicou, encontramos informação sobre o arquiteto, a época histórica, os reis que o habitaram ou os acontecimentos que ali tiveram lugar. Mas, quando a pergunta passa a ser "Que pedra é esta?”, as respostas tornam-se frequentemente vagas.

 

"Se é escura, é granito; se é esbranquiçada, é mármore. Mas de onde veio? Ninguém sabe”, observou. E é precisamente essa ausência de conhecimento que, para o investigador, importa corrigir. "Os monumentos não existiriam sem a pedra. Portanto, a própria pedra é património”.

 

A mudança de perspetiva não é meramente académica. Conhecer uma pedra significa conhecer a sua história geológica, localizar as pedreiras onde foi extraída, perceber como foi trabalhada, identificar as redes comerciais através das quais circulou e, em muitos casos, criar condições para que possa voltar a ser utilizada na conservação e restauro do património construído.

 

Pedra não nasce onde queremos

Antes de entrar diretamente no conceito de Heritage Stone, Jorge Carvalho deixou uma mensagem particularmente dirigida a quem trabalha no sector extrativo.

 

As pedras ornamentais – ou pedras naturais, ou dimension stones – são, antes de mais, recursos minerais e recursos naturais. E os recursos minerais, sublinhou, não podem ser deslocados ao sabor das decisões humanas: existem onde a geologia os colocou e só aí podem ser explorados. "São ocorrências economicamente valiosas, determinadas pela geologia. Não há escolha humana sobre onde os extrair”, afirmou.

É também por isso que Carvalho rejeita uma visão simplista da indústria extrativa como uma atividade dispensável ou incompatível, por definição, com a sustentabilidade. "A mineração é a atividade que disponibiliza recursos minerais, como as pedras ornamentais, à sociedade”, recordou, acrescentando uma formulação particularmente expressiva: "Se não se pode cultivar algo na agricultura, é preciso minerá-lo”.

 

Para as empresas do sector, a mensagem é relevante: a valorização cultural da pedra começa também pelo reconhecimento de que cada recurso geológico é irrepetível na sua localização, composição e identidade.

 

Não há pedras más, há aplicações erradas

Granitos, mármores, calcários, ardósias, quartzitos e arenitos foram depois enquadrados por Jorge Carvalho segundo a sua origem geológica – rochas ígneas, sedimentares e metamórficas – numa passagem da palestra visando mostrar que as características de cada pedra são consequência de processos naturais que podem ter ocorrido ao longo de centenas de milhões de anos.

 

É essa história que explica, por exemplo, as cores, texturas, veios, deformações e propriedades físicas que distinguem uma pedra de outra. E dela decorre outra ideia com especial interesse para prescritores, arquitetos, transformadores e produtores: "Não existem pedras más. Existem apenas aplicações inadequadas”.

 

Resistência à compressão e à flexão, resistência à abrasão, porosidade ou absorção de água são algumas das propriedades que determinam a adequação de uma pedra a determinada utilização. O conhecimento geológico deixa, assim, de ser apenas uma explicação da origem dos materiais para se tornar também um instrumento de boa especificação e de utilização responsável.

Heritage Stones: matéria-prima e património

É neste ponto que surge aquilo a que Jorge Carvalho chamou "a peça que faltava” na leitura do património. As Heritage Stones são pedras naturais que alcançaram utilização e reconhecimento relevantes na cultura humana, através da arquitetura, dos monumentos e das obras de arte. Mas o seu valor ultrapassa a função enquanto simples material construtivo. Cada uma transporta consigo uma história geológica, conhecimentos técnicos acumulados, antigas redes de comércio e uma dimensão de identidade cultural.

 

Um exemplo apresentado por Carvalho mostra até que ponto essa história pode surpreender. Ao estudar mármores utilizados no templo romano de Tróia, o investigador concluiu que parte da pedra tinha origem na atual Turquia. "‘É impossível, vem do extremo norte, é mais perto’. Não, não, vem da Turquia”, contou, usando o caso para demonstrar como a identificação da pedra pode revelar antigas rotas comerciais e ligações económicas que a simples leitura arquitetónica de um monumento não permite descobrir.

 

A geologia transforma-se, deste modo, numa nova fonte documental da própria história.

 

Restauro e pedreira de origem

Para o sector da pedra natural, talvez uma das consequências mais importantes desta abordagem esteja na relação entre património, pedreiras e restauro. Reconhecer uma Heritage Stone permite documentar as suas características geológicas, saber onde foi explorada e compreender a sua utilização histórica. Permite igualmente proteger pedreiras antigas e assegurar conhecimento indispensável a futuras intervenções de conservação.

"Temos de saber com que tipo de pedra estamos a trabalhar e de onde vem”, salientou Carvalho. "Somos capazes de identificar as pedreiras originais? Devemos preservar as pedreiras originais ou não, para efeitos de restauro?” A questão coloca as pedreiras numa posição particularmente interessante: deixam de ser vistas apenas como locais de extração para poderem ser encaradas também como parte integrante da cadeia de valor do património.

 

É esse um dos quatro grandes objetivos associados ao reconhecimento das Heritage Stones: aprofundar o conhecimento, determinar a proveniência, promover a proteção e assegurar uma utilização sustentável, incluindo a continuidade da exploração necessária à conservação e ao restauro futuros.

 

Pedras portuguesas entre as primeiras 55

O movimento tem hoje enquadramento internacional. A International Union of Geological Sciences (IUGS) desenvolve esta área através da Heritage Stone Subcommission, integrada na International Commission on Geoheritage, com a missão de estabelecer critérios internacionais, identificar pedras de particular importância cultural e promover o seu estudo, proteção e utilização sustentável.

 

Um primeiro marco foi alcançado com o reconhecimento de 55 Heritage Stones de diferentes países, reunidas numa publicação internacional que documenta a sua geologia, pedreiras e utilização em património construído. E Portugal ocupa aí uma posição de destaque: cinco das primeiras 55 pedras reconhecidas são portuguesas.

 

Jorge Carvalho destacou entre elas pedras profundamente ligadas à paisagem construída nacional e à internacionalização histórica da pedra portuguesa: o calcário de Ançã, a Brecha da Arrábida, o Granito do Porto, o Lioz e o Mármore de Estremoz. A apresentação mostrou exemplos tão distintos como o Lioz associado ao património de Lisboa e Mafra ou o Mármore de Estremoz utilizado numa peça arquitetónica em Nova Iorque de enorme relevo, o Perelman Performing Arts Center.

 

Não se trata, portanto, apenas de distinguir cinco materiais. Trata-se de reconhecer internacionalmente que a geologia portuguesa também ajudou a construir património dentro e fora do país.

 

Pedreiras e monumentos – a mesma história

No final, Jorge Carvalho regressou à ideia com que iniciara a intervenção: olhar para o património apenas através da arquitetura ou da história humana é olhar para uma parte da realidade.

 

Uma antiga pedreira pode conter, nas suas frentes de exploração, milhões de anos de deformações e episódios geológicos; o bloco retirado dessa pedreira pode depois atravessar territórios, integrar redes comerciais, ser transformado por gerações de trabalhadores e acabar incorporado num edifício que, séculos mais tarde, é classificado como património.

 

Pedreira, pedra e monumento pertencem, assim, à mesma narrativa. "Finalmente, temos uma nova perspetiva sobre o património, porque os monumentos são artefactos geológicos”, concluiu Jorge Carvalho.

 

Para um país produtor e transformador como Portugal, essa perspetiva acrescenta uma dimensão particularmente relevante à valorização da pedra natural: cada pedra portuguesa não transporta apenas propriedades técnicas e valor económico. Transporta território, conhecimento, cultura e milhões de anos de história geológica.

E reconhecer esse valor pode ser também uma forma de garantir que as pedreiras que deram origem ao património do passado continuam disponíveis para conservar – e construir – o património do futuro.